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 Letters Of A Damaged Mind

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MensagemAssunto: Letters Of A Damaged Mind   Dom Maio 04, 2008 9:09 pm




Schielz Prison, Dresden, Alemanha - 14 de fevereiro de 1984.

Meu nome é Eric Blackbury, nasci na Inglaterra e há oito anos estou preso em Schielz, culpado por todos os tipos de homicídio que o senhor possa imaginar. Sim, eu os cometi realmente. Eu os cometi com a mesma frieza que um caçador mata sua presa. Bem, são tempos passados. Giulliam, sei que devo ser o quarto ou o quinto que lhe envia cartas esse ano. Quero-lhe pedir ajuda. Eu não deveria estar aqui, pelo menos não sozinho. Todos os assassinatos, exceto um, foram a mando de outras pessoas, pessoas poderosas, que chegaram a me pagar fortunas para que outra pessoa fosse “tirada de circulação”. Acho que a melhor forma de o senhor entender é contando alguns desses fatos, começando pelo primeiro, quando tudo começou.

Era 1972. Eu tinha 21 anos de idade e estava terminando a faculdade. Eu vinha de família rica, então eles pagaram todo o curso de uma só vez e eu me instalei num dos alojamentos da própria universidade. Um dos meus colegas de quarto, Ryan Locke, andava meio distante nos últimos tempos. Ele já não se concentrava em nada, seu pensamento apontava para outro lugar, sempre o mesmo lugar, ou talvez sempre o mesmo alguém. Sim, era alguém. Vivíamos juntos há quase três anos, freqüentando os mesmos lugares, fazendo as mesmas coisas e passando pelos mesmos problemas. Achei que eu estava no direito de lhe perguntar o que estava se passando. “Não é nada”, ele me disse, aborrecido. Foi assim durante três dias, até que ele viu que eu estava
ficando preocupado com ele. Foi então que ele me procurou.

- Eric... Vamos conversar... – disse ele, inquieto.
- Você está bem? – eu perguntei.
- Não, é óbvio. – ele deu um riso forçado.
- Eu nem vou fazer muita cerimônia... Conte-me tudo.
- Há umas pessoas tentando me matar... Me ajuda, Eric! Eles vão me matar! – ele se desesperou repentinamente.
- Por quê? – eu não me alterei.
- Lembra no ano passado... Eu parei de me drogar... Mas os caras ficam no meu pé! Eu nunca vou ficar livre disso... A não ser que... – ele parou e começou a das risadas, como um psicótico.
- Mas o que diabos deu em você?! Se acalme! – eu dei uma tapa nele.
- Então sou eu que vou matá-los... – disse Ryan, que se levantou rapidamente. Eu o segurei.
- Você não vai cometer um crime desses... Vamos até a polícia. – eu decidi.
- Polícia?! Os policias não passam de vermes comparados ao Herman e o pessoal dele.
- Se a polícia não significa nada, quem dirá você, seu maluco! Você está paranóico! – eu o sacudi pelos ombros – Tudo isso porque você não...
- Cala a boca! – ele me interrompeu – Não tem nada a ver com as drogas! Eu estou bem sem elas...
- Estou vendo – eu disse, sarcástico – Não é você que é procurado por eles... Eles é que são procurados por você... Não é?!
- Achei que você fosse meu amigo... – disse ele, pondo-se a chorar.
- Nem todos os amigos nos fazem sorrir. – eu saí do quarto. Ryan permaneceu chorando.

[...]

- Sr. Blackbury! – gritava alguém, batendo na porta.
- Uh... Droga. – eu forcei meus olhos para que eles abrissem, e, como uma lesma, fui arrastando os pés até a porta.
- O Sr. Locke está aí? Ele já perdeu duas aulas hoje... – disse a assistente do reitor.
- Eu... Erm... – examinei o quarto rapidamente, não havia visto Ryan desde a discussão na noite passada – É... Como você vê... Ele não está.
- Vou esperar algumas horas... Caso ele não apareça, serei obrigada a comunicar seus pais. Com licença. – ela se retirou.

Fiquei pensando comigo mesmo. Ryan com certeza deve ter ido procurar o tal Herman. Eu sabia que ele não seria capaz de mover um músculo para fazer mal a alguém, mas com certeza daria uma de valente e ia acabar se dando mal. Minha primeira aula do dia começaria em 15 minutos e eu ainda estava tentando voltar ao sono. Era inútil. Não conseguia parar de pensar no Ryan, ele deveria estar encrencado naquele momento, enquanto eu permanecia ali, ressacado. Novamente a passos de lesma, me encaminhei ao banheiro e só após sentir o frio intenso da água no meu corpo quente foi que recuperei totalmente meus reflexos. Dei a volta pela floresta
que cercava o campus para não ter que passar pelo pátio, e fui até a garagem dos alunos. Peguei meu carro e fui a 180 km/h até chegar a Grahamond City, onde se localizava o “covil” do Herman. Lá, precisei gastar quase meia hora num congestionamento na única rua de podia me levar até o subúrbio.

[...]

- Eric! – gritou alguém, próximo ao semáforo.
- Marisa?!... Uh... – eu fiquei sem movimentos.
- O que faz aqui, espertinho? Fugindo das aulas, ahn? – ela sorriu e me deu um beijo demorado.
- Ei... Agora não é hora pra isso... Posso te ver no campus mais tarde? Estou com problemas com o Ryan agora... – eu disse gentilmente.
- O Locke? Dá pra ver que vocês dois se parecem... Eu o vi por aqui agora há pouco. – ela disse, sorrindo. Marisa Pole era minha namorada, uma atraente garota, mas não parecia perceber a gravidade das coisas.
- O que?! Onde ele estava?! Pra onde ele foi?! – eu a enchi de perguntas.
- Hm... Não sei... – disse ela, ainda sorrindo.
- Se não fosse esse sorriso lindo, você estaria encrencada, mocinha. – eu não resisti.
- Eu o ajudo a procurar... Vamos, foi por ali que eu o vi. – ela disse, entrando no carro. “Mas que droga”, eu pensei.

[...]

- Não falei! Olha ele ali! – ela disse, dentro do carro. Ryan estava saindo de uma lanchonete, um
pouco frustrado.
- Fique aqui, eu vou até lá. – eu disse, estacionando o carro. Eu fui andando rapidamente ao encontro de Ryan – Ei! Ryan!
- Mas hein? – disse ele, virando rapidamente – Eric?!
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei, irritado.
- Corra! Acabou tudo! Corra! – ele gritava, atraindo a atenção dos pedestres ao redor.
- Cala a boca! O que tá havendo? – eu perguntei. Alguns tiros foram disparados de dentro da lanchonete,
quebrando a vidraça ao meu lado. Eu abaixei, apavorado. Ryan caiu ao meu lado, sem reação.
- Ma... Mari... – disse ele, olhando para frente. Marisa estava se aproximando.
- Meu Deus! Vocês estão bem! Oh, não! Ryan! – ela gritava rapidamente. As pessoas estavam se acumulando
ao redor da cena. Eu corri para dentro da lanchonete, onde as pessoas ainda gritavam e se escondiam debaixo das mesas. Ouvi tiros vindo dos fundos do estabelecimento e corri até lá. Ainda consegui ver dois homens fugindo num Cadillac vermelho. Iria segui-los, se meu carro não estivesse há metros de distância. Voltei para a entrada da lanchonete. Marisa havia sumido e o meu carro também. Ryan estava no chão, quase sem respiração.

[...]

Precisei voltar para a faculdade de ônibus naquela tarde. Estava furioso, pois minha namorada havia sumido com o meu carro e eu não fazia idéia de onde ela estava. Como costuma acontecer com a maioria dos azarados como eu, Marisa não estava no campus, mas, meu carro sim. Estava intacto, ainda limpo, mas o que me preocupava era Marisa. Ela fazia enfermagem, chegara naquele semestre e nos quatro meses em que eu a
vi, fui ficando apaixonado por ela. Há duas semanas, finalmente ela me deu bola e eu sei que ela me ama tanto quanto eu a amo. Não demonstrávamos muito, mas nos amávamos loucamente, e a única coisa que me importava naquele momento era ela. Será que ela foi atrás do carro? Impossível... Marisa era muito inocente. Minhas mãos estavam suando, era a terceira volta ao redor do jardim.

- Eric! – ela estava parada em frente ao portão do jardim.
- Onde você se meteu? Por que saiu daquele jeito? – eu perguntei.
- Precisa vir comigo, eu explicarei tudo no caminho. – ela me puxou e nós saímos do campus. Andamos
alguns metros da estrada e chegamos ao encontro da BMW do pai de Marisa, que estava estacionada ao lado de algumas árvores.
- Agora pára de me enrolar! O que houve?! – eu disse, irritado.
- Está gritando comigo? – ela me encarou. Eu me interrompi.
- N-não... Estou irritado com tudo isso. – encostei a cabeça no painel do banco, quase exausto.
- Não queria dizer nada, mas – ela travou as portas do carro – nós estamos fugindo.
- O que?! De onde você tirou essa idéia, Marisa?! – eu a olhei furioso.
- Ryan nunca foi quem nós pensamos... Pelo menos não antes...
- Como assim?
- Ele trabalhava para o Herman... Eu estava no hospital agora há pouco pra buscar os pertences dele e
havia muito dinheiro... Os policiais disseram que é dinheiro sujo... Ryan vai ser preso logo que melhorar.
- Mas ele estavatentando fugir do Herman... – eu disse, espantado.
- Parece que não... Quando Ryan acordar tudo vai ser esclarecido... Mas há um problema: você está
ameaçado... Nós dois estamos. Eu... Eu segui o Cadillac dos dois caras que fugiram pelos fundos da lanchonete... Ao chegar em um beco, o carro começou a dar ré, como se fosse bater no meu, digo, no seu carro. Eu tentei fugir, daí eles tentaram atirar, mas logo eu consegui chegar à rua principal e fugi. Eles
vão nos perseguir e... – Marisa não pôde terminar. Algo quebrou o vidro traseiro e a fez se curvar para frente com violência. Um tiro atingira sua cabeça.
- Malditos! – eu gritei. Uma chuva de tiros foi disparada contra o carro, e logo barulhos de pneus na estrada foram ouvidos por mim. Os desgraçados fugiram descaradamente. Eu fiquei encolhido no banco do carro até ter certeza de que eles haviam ido embora. Marisa estava na minha frente, com a cabeça apoiada no volante e o sangue de sua cabeça pingando no banco e no chão do carro. Eu já era experiente o suficiente pra saber que ninguém sobreviveria àquilo. Mas alguém haveria de pagar...

[...]

- Querido! Finalmente... – comemorava a mãe de Ryan, na porta do hospital.
- Agora não, Sra. Locke. – eu interrompi – Preciso falar com ele primeiro.
- Ei... Quase um mês depois de sofrimento você me recebe assim?! – disse Ryan, irônico.
- Marisa foi morta por sua causa... Mas por sorte, eu sobrevivi pra poder acabar com você.
- E - Eric... Do que você está falando?! – ele disse, fingidamente surpreso.
- Conte-me, Ryan... Desde quando você trabalhava pro Herman? – eu o encarei. Ryan parou um instante
e começou a contar tudo.

Ryan estava envolvido com o tráfico há dois anos. Quando estava prestes a perder sua matrícula na
faculdade por faltas e notas baixas, ele tentou sair daquele mundo. O contínuo vício e os contatos que Ryan possuía (no caso, Herman) continuaram perseguindo-o. Ryan fazia favores de tempos em tempos, e a última reunião (onde ele foi baleado) foi para a entrega do dinheiro ganho com o contrabando de drogas. Foi o último contato que Ryan teve com Herman até então. Eu hesitei, tentei deixar a história de lado, mas duas semanas depois de voltar ao campus, Ryan novamente apresentou comportamento suspeito. Eu o segui numa noite e o vi na mesma lanchonete, com os mesmos malditos caras. As cenas de três meses atrás voltaram à minha cabeça como um filme de horror. O sangue fervia nas minhas veias e tudo o que eu queria naquele momento era matar aquele círculo de viciados. Os dois homens saíram no velho Cadillac, como antes, e Ryan esperou o
sinal fechar para atravessar. Estávamos lá. Só eu e Ryan. Era tarde da noite. Nem tive chance de pensar. Quando ele pôs os pés no asfalto, eu acelerei fortemente contra seu corpo, prensando-o contra um poste e esmagando a frente do carro contra seus ossos. Eu desmaiei com o impacto. Acordei sendo retirado do carro pelos bombeiros. A polícia estava à minha espera. Tivemos uma breve conversa e horas depois eu estava numa viatura, sendo encaminhado para uma prisão... Confesso que desse crime não me arrependi. Foi melhor assim, fiquei a salvo da gangue do Herman e Ryan também.

Pe. Giulliam, está ficando tarde, acho que fui muito demorado. Logo irão apagar as luzes. Desde já agradeço sua compreensão e espero que me encoraje a contar todo o resto da minha vida criminal. É isso, só isso. Vejo você por aí, companheiro.

Sinceramente,

Eric J. Blackbury.

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MensagemAssunto: Re: Letters Of A Damaged Mind   Dom Maio 18, 2008 2:15 pm

[duas semanas depois...].

Resposta

Roma, Itália – 28 de fevereiro de 1984.

Caro Sr. Blackbury,

Gostei do fato de ter sido bastante sincero em sua carta. Foi o único dos presidiários que contou os fatos, ao invés de contar as partes que o defendem. Para um jovem na sua idade, que nunca havia passado por aquilo, talvez parecesse a melhor escolha, mas como podemos ver hoje, não foi bem assim. Gostaria muito de ouvir o restante da sua história, espero notícias.

Sinceramente,

Giulliam H. Minazzi.
_____________________________________________________________________________



Schielz Prison, Dresden, Alemanha – 3 de março de 1984.

Caro Giulliam,

Sem muita cerimônia, começarei a contar tudo o que aconteceu depois que fui preso. Passei dois meses
na cadeia, logo meus pais tomaram providências para que eu saísse de lá, e assim aconteceu. Confesso que é a representação do inferno na terra. O odor das celas dá náuseas, os outros presos parecem fósseis de tão asquerosos e envelhecidos com a sujeira. Péssimas memórias, mas continuemos. Logo que fui solto, retomei as aulas, embora as pessoas não se aproximassem mais de mim. Consegui passar o resto do ano até que ficou tudo tão insuportável que eu tranquei o curso, faltando apenas três meses para me formar, e saí do campus, dessa vez para sempre.

Em 1974, eu fui embora para a Europa. Meus pais estavam preocupados com a minha educação, mas sabiam que dinheiro nunca seria o problema, já que eu teria uma enorme herança garantida. Como se sabe, esses casos de mortes de universitários sempre fica muito falado. Daquela vez não foi diferente. Fotos minhas, de Marisa e de Ryan foram divulgadas por todo o mundo, por esses jornais sensacionalistas, e ao pôr os pés na Europa, eu sabia que seria rejeitado do mesmo jeito. Cheguei à
Inglaterra, exatamente em Londres. Para que eu conhecesse novas pessoas, meus pais conseguiram um convite de uma festa do Congresso. Eu iria com eles, mas o vôo deles foi cancelado e eu tive que encarar todas aquelas pessoas sozinho. Giulliam, o que você vai ler agora é a narração do maior erro da minha vida.

Ao chegar ao salão principal, já haviam grupos formados: algumas esposas de congressistas e
parlamentares conversavam entre si à direita do salão. Seus maridos, sentados às mesas, conversavam, fumavam e bebiam à vontade. Aquilo não era o meu mundo. Vi um velho senhor sentado sozinho à esquerda. Estava bem vestido, e, mesmo velho, tinha uma aparência conservada, com traços que ainda eram muito bonitos.

- Parece que também não encontrou seu grupo. – eu tentei um diálogo.
- Oh! Sim... – ele sorriu – Você é algum jovem político?
- Não... Não mesmo.
- Sou o Coronel Heathrow, muito prazer, meu jovem – ele disse, ajeitando o uniforme.
- Sou Eric Blackbury.
- Ah! – ele exclamou contente – O filho dos Blackbury, que rapaz você se tornou... Eu o conheci quando você tinha uns doze anos. Mas diga-me, onde estão seus pais? Deveriam estar aqui...
- O vôo deles foi cancelado, virão amanhã para o almoço com o Primeiro-Ministro.
- Sei... – ele olhou ao redor – Você está realmente sozinho?... Você não tem nenhuma companhia,
digamos... feminina?
- Não... – eu sorri – Engraçado você não tocar no assunto mesmo me conhecendo.
- Ora... Todos nós erramos na vida. Eu inclusive, uma vez deixei um companheiro meu morrer num
atentado... Pra mim é a mesma coisa que matar. – ele disse, sincero e confortante.
- Então... Vamos passar o resto da noite conversando ou tentaremos uma aproximação com alguém? – eu disse, irônico. Heathrow riu.
- Bem... Há alguns companheiros meus do Exército lá no jardim... Venha, vou apresentar você a
eles.

No meio do caminho, umas quatro pessoas se aproximaram para cumprimentar Heathrow e para me olharem desagradadas, com sorrisos amarelos: A Primeira-Dama americana, o Primeiro-Ministro inglês e sua esposa, um sargento da Marinha e sua filha. Oh, a filha dele. Lembro não ter parado de olhá-la enquanto o sargento fazia as saudações devidas ao Coronel. Era muito bonita, uma pena não ter sabido seu nome. Enfim, chegamos ao jardim, mais exatamente na fonte. Foi pior ainda. Os companheiros de Heathrow eram engraçadinhos. “Então, quando vai espremer alguém de novo?”, perguntavam após me cumprimentarem. Heathrow entendeu que deveria me retirar dali o mais cedo possível, e logo continuamos andando pelo jardim.

- Você é esperto, Blackbury... Vi as suas olhadas para a mocinha. – Heathrow disse, me olhando.
- Quem é ela? – perguntei, meio envergonhado.
- Victoria... Victoria Gardenick. Mas eu tomaria cuidado com ela... O pai a protege muito, e espera que ela case com um sujeitinho ucraniano da Força Aérea... Mathias Van Der Koch.
- Parece um nome bem chamativo – eu sugeri – Mas vai ver não é tão grande coisa...
- Não, não é mesmo... E a garota o odeia. Mas mesmo assim, não me aproximaria dela se fosse você.
- Sendo assim... Voltemos ao salão. Quero ter uma conversa com ela ainda essa noite. – eu disse,
empolgado. Heathrow me passou um rápido olhar reprovativo.

Nas duas horas seguintes tudo ficou igual. Eu já estava entediado e Heathrow também. Meus olhos estavam cansados de tanto perseguir a Srta. Gardenick pelo salão. Resolvi que seria melhor ir embora antes que as coisas piorassem.

- Sr. Blackbury... Vai desistir da festa? – disse Heathrow, com uma risada.
- Estou cansado. Quem sabe nos vejamos no almoço amanhã... Até logo, Coronel Heathrow. – eu me
despedi, atravessando o salão.
- Então é isso... Não me desaponte, quero isso pronto ainda hoje. – Victoria Gardenick sussurrava a
um desconhecido, na escada.
- Tudo vai dar certo, senhorita. – disse o homem, com um sotaque meio alemão. Ele desceu as escadas
apressadamente e saiu num carro.
- Oh! – exclamou Victoria, surpresa – Erm... Boa noite?
- Boa noite... Há algo errado? – eu perguntei, notando sua expressão.
- Não! – ela disse altamente – Está tudo ótimo... Estava tomando um pouco de ar, quando aquele
senhor me pediu informações sobre... Er... Sobre a Ponte Maddenborough.
- Hm... Sou Eric Blackbury... Nós nos vimos rapidamente lá dentro – disse, com um sorriso
orgulhoso.
- Oh, eu sei... Sou Victoria Gardenick, mas pode me chamar de Vicky.
- Então... Vai ficar só tomando ar ou prefere dar um passeio?
- Não posso... – ela disse, com um sorriso inocente, que de repente fechou-se numa cara enjoada –
Meu noivo está lá dentro.
- Van Der Koch?... Sei...
- Você o conhece?
- Só de nome... Soube pelo Coronel Heathrow que vocês estavam noivos... Mas não imaginei que ele estivesse aqui.
- Nem eu gostaria que ele estivesse... – disse ela, com um olhar perverso.
- Ah... Então foi tudo arranjado pela sua família? – eu disse, com cara de desentendido.
- Eu não tenho mãe desde criança. Meu pai me mantém protegida todo o tempo. Eu nem sequer conhecia Mathias quando meu pai me disse que havia arranjado um noivo... Eu odeio os dois... – disse ela, indignada.
- Não é culpa sua... – eu disse, colocando a mão em seu ombro.
- Você vai embora logo? – ela perguntou repentinamente.
- Está me expulsando? – eu perguntei, irônico.
- Oh, não! Quero só saber quando sai da cidade... Sei que você é americano.
- Daqui a uma semana... Mas não estou gostando muito daqui, talvez eu vá antes...
- Sim!... Eu poderia ir com você? – perguntou ela, excitada.
- Creio que nos conhecemos muito pouco...
- Oh, não seja mal... Todas as pessoas com quem convivo são velhas e super-protetoras... Você é minha única oportunidade de fugir de todo o mal que está por vir na minha vida... Sr. Blackbury... Eu imploro. Se não me ajudar, algo muito ruim vai acontecer.

Por um instante eu a olhei. Seus olhos estavam úmidos, e um pequeno fio de lágrima se estendeu por
sua pele branca. Ela continuou imóvel, me encarando com aqueles olhos azuis. Meu coração poderia levá-la até o fim do mundo, mas minha situação já não estava nada boa, seria muito risco a correr.

- Não. – eu disse, secamente, descendo o restante da escada.

Naquela noite eu estava furioso por dentro. Seria Victoria uma nova chance? Eu poderia ser feliz e
esquecer tudo o que houve com Marisa e Ryan e tentar uma nova vida ao lado dela? Não, não poderia. Se fugíssemos, logo seu pai e seu noivo viriam atrás dela, e quem sabe me condenariam por seqüestro ou algo parecido. Talvez tenha sido melhor assim, embora eu soubesse que Victoria jamais iria me encarar novamente. Recebi uma visita durante a noite. Não dormi antes das quatro da manhã, e, como conseqüência, acordei quase na hora do almoço com o Primeiro-Ministro.

[...]

- Oh! Os Blackbury! – exclamou o Primeiro-Ministro Sellbrough, com uma expressão alegre, levantando
da mesa – Estávamos esperando vocês... Mas onde está o garoto?
- Parece que ele esqueceu algo no carro... Já está vindo. - disse minha mãe.
- Então podemos começar? – Sellbrough perguntou, animado – Jeff! Traga o champanhe.
- Bom dia, senhores. – eu disse, me aproximando friamente.
- Oh! Estávamos à sua espera, meu caro... – Sellbrough exclamou.
- O que tem nesse champanhe... Está tão... – Sr. Gardenick fez uma pausa. Ele começou a tossir,
como se estivesse engasgado, mas sua expressão era horrível. Ele se debateu durante alguns segundos e depois, como que sufocado, levou as mãos ao pescoço até desmaiar sobre a mesa.
- Papai?! – acudiu Vicky, pasma.
- Rápido! Um médico! – exclamou Sr. Sellbrough.

Minutos depois da conversa no hall a polícia chegou ao local com a ambulância. O Detetive Roderick estava comandando a investigação, e logo pegou os depoimentos de Vicky e dos demais presentes na mesa de jantar na hora do crime. Eram oito pessoas, precisamente.

[...]

- A perícia concluiu envenenamento por cianureto de potássio. A dose foi fatal. Infelizmente não
achamos vestígios da substância em nenhum dos pertences das testemunhas. Na certa, foi suicídio. – disse o detetive Roderick.
- Claro... Um homem de carreira estável, filha noiva e que o ama provavelmente parece ter todos os
motivos para cometer suicídio. – disse Vicky, chorando.
- Srta. Gardenick, não temos provas no momento para concluir outra coisa... Em breve, com a
continuação das investigações, possamos concluir outra coisa. – disse o detetive.
- Que seja... – suspirou Vicky, saindo da sala.

[...]

- Me desculpe... – eu disse, entrando num dos cômodos da mansão.
- Não precisa se desculpar. Na verdade, foi meio estranho ter te pedido pra me ajudar a fugir, sendo que você mal me conhece... É que eu estava desesperada.
- Eu entendo. Recusei apenas porque era muito arriscado. Aliás, fugiria com você pra onde quisesse. –
eu disse. Vicky corou ligeiramente.
- Acho muito mais arriscado aquilo que nós realmente fizemos. – disse Vicky, séria.
- Foi suicídio, percebe? – eu disse, com um sorriso. Vicky me beijou – Vicky, você foi brilhante!
- Sim, a filhinha desconsolada foi bem convincente, mas ainda há uma parte do serviço, e temos
que fazê-la, senão não ficaremos juntos.
- Sim... Vamos ficar juntos custe o que custar.
- Custe o que custar... – ela repetiu.

[...]

Finalmente, o serviço completo. Mathias Van Der Koch foi “morto enquanto pilotava seu avião, que
sofreu uma pane”, pelo menos foi o que a polícia disse. Eu e Victoria éramos parceiros perfeitos. Ela, uma excelente atriz, conseguiu comover a todos no velório do pai e do noivo. Eu, rapaz com passagem pela polícia, matei ambos. Como? É simples... Na verdade é até surpreendente o fato de não terem
descoberto tudo. Na noite da festa no Congresso, Vicky confirmou a encomenda do cianureto na escada do palácio, enquanto eu ainda nem sequer havia falado com ela. Sim, o fato de ter recusado minha fuga com ela não foi nenhum encenação. Tudo foi resolvido naquela mesma noite. Ela visitou o quarto onde eu estava hospedado e, com seus truques, conseguiu me convencer do jeito mais patético a ajudá-la. “Você já fez isso antes, por uma mulher que amava”, ela sussurrou isso no meu ouvido enquanto apertava minhas mãos. Passamos a noite juntos, até que ela finalmente foi embora, quase às 4 da manhã. A hipótese de suicídio foi confirmada por terem achado um envelope vazio de cianureto no casaco do Sr. Gardenick, obviamente, esvaziado e implantado lá pela própria Vicky. Outro envelope
de cianureto foi utilizado na taça de Sr. Gardenick. A dose mortal do cianureto ficou lá o tempo todo, sem ninguém perceber e, ao ser servido o champanhe, tudo foi dissolvido e tomado. Mathias? Muito fácil... Vicky me deu acesso ao galpão onde o avião de Mathias estava guardado, e eu mesmo cortei alguns fios do sistema. Mathias morreu a quilômetros de nós. Duas semanas depois, Vicky e eu
estávamos arrumando nossas coisas para morarmos num pequeno sítio. Ela havia saído há dois dias para acertar os últimos detalhes, quando eu recebi uma carta assinada por ela e um pequeno pacote.

“Caro Sr. Blackbury,

Espero que leia essa carta enquanto pega um trem para um lugar distante, pois a polícia deve estar indo atrás de você nesse momento. Eu, filha e viúva, me senti ameaçada, pois mataram meus parentes mais próximos, e logicamente, eu fiquei um pouco apavorada e me sentindo perseguida, já que eu ignorei totalmente a idéia de suicídio e erro mecânico diante deles. Sabotagem, eu diria. Alguém que me persegue. Alguém que eu conheci e que ficou inteiramente obcecado por mim. Alguém capaz de matar, alguém... Alguém com o seu perfil, Eric. Se mostrar essa carta à polícia, provará que eu também participei, mas então você estaria se entregando também. Você está perdido. Fuja enquanto pode. Quanto a mim? Estou procurando uma nova casa para viver com o meu velho amante: o Coronel Heathrow. Oh, por favor, deve estar descontrolado agora, mas acalme-se.

Junto com este envelope segue a quantia que, a meu ver, será suficiente para que você possa seguir sua vida após esse seu trabalho sujo. Agora você só estará seguro se sair de circulação. Agora você é apenas um fantasma, um foragido que jamais será encontrado. Siga seu caminho e continue a fazer o que você faz tão bem: matar.


Da mulher que o ama, sua eterna parceira,

Victoria Gardenick.”

Não tenho mais o que falar, Giulliam. Eu a amava, realmente era obcecado por ela, e o fato de ela
ter me traído jamais a apagou da minha mente. Eu a amo até hoje e a amarei pra sempre. Ela foi minha perdição, mas ainda assim foi a melhor parte da minha vida. Devo o que sou agora à ela, mas se quer mesmo saber, nunca me arrependi de ter me tornado um assassino. Nunca matei inocentes. Cada um tem seus pecados, o meu, foi amá-la. Essas lembranças me aborrecem, Giulliam. Já chega por hoje. É isso, só isso. Vejo você por aí, companheiro.

Sinceramente,

Eric J. Blackbury.

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